30 de janeiro a 31 de janeiro 2026
4° Encontro do Alojamento Local dos Açores
O 4.º Encontro do Alojamento Local dos Açores decorreu na Madalena, Ilha do Pico, reunindo proprietários de alojamento local de várias ilhas, entidades públicas, parceiros institucionais e decisores políticos, num momento de reflexão estratégica sobre o presente e o futuro do setor na Região Autónoma dos Açores. A sessão de abertura contou com intervenções do Presidente da Associação do Alojamento Local dos Açores (ALA), João Pinheiro, da Presidente da Câmara Municipal da Madalena, Catarina Manito, e de uma mensagem da Secretária Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, Berta Cabral.

Na sua intervenção, João Pinheiro destacou que este foi o 4.º encontro realizado numa ilha diferente, sublinhando que esta opção é uma escolha estratégica da ALA, com o objetivo de descentralizar os eventos, promover a distribuição dos fluxos turísticos, dinamizar a economia local e combater a sazonalidade. O Presidente da ALA reforçou que o encontro é feito por e para proprietários de alojamento local, enquanto espaço de partilha de experiências, preparação para a época alta e fortalecimento de um setor que hoje assume um papel central no turismo regional.
O Presidente da ALA sublinhou que o alojamento local deixou, há muito, de ser um complemento da atividade turística, representando atualmente a maioria das camas disponíveis na Região e sustentando milhares de pequenos empresários, com impacto direto e indireto na criação de emprego e na economia local. No caso da Ilha do Pico, existem cerca de 600 unidades de alojamento local, correspondentes a aproximadamente 3.000 camas, o que representa 73% da capacidade total de alojamento da ilha, gerando um impacto económico anual estimado em 30 milhões de euros.
Apesar do crescimento, João Pinheiro alertou para os desafios estruturais que o setor enfrenta, em particular o agravamento da sazonalidade, com mais de metade das unidades sem hóspedes durante a época baixa. Referiu ainda que o ritmo das reservas, mesmo na época alta, continua abaixo do desejável, defendendo a necessidade de políticas públicas ajustadas à realidade insular e à estrutura do tecido empresarial turístico dos Açores.
O Presidente da ALA destacou ainda que o setor do alojamento local atravessa um novo ciclo, com uma direção recentemente renovada e uma aposta clara na qualidade da oferta, defendendo a necessidade de rever a regulamentação do setor, cuja portaria não é atualizada há cerca de dez anos. Sublinhou que este processo deve ser feito com diálogo, dados concretos e envolvimento de quem está no terreno, num contexto marcado pela instabilidade internacional, alterações na conectividade aérea e incertezas no investimento em promoção turística.
Durante a sua intervenção, João Pinheiro recordou também o peso económico do alojamento local, referindo que, em 2023, o setor contribuiu com cerca de 350 milhões de euros para a economia regional, o que representa aproximadamente 7% do PIB dos Açores, valor que poderá atingir 500 milhões de euros em 2024. Salientou que cerca de dois terços deste impacto é gerado de forma indireta e induzida, beneficiando outros setores da economia, e reforçou que, sem o alojamento local, muitas zonas mais despovoadas, centros históricos e edifícios degradados não teriam sido reabilitados.

Na sua intervenção, a Presidente da Câmara Municipal da Madalena, Catarina Manito, deu as boas-vindas aos participantes, sublinhando a importância da escolha da Madalena como palco do encontro e o papel central do Pico e do Triângulo no debate sobre turismo, território e economia regional. Destacou o alojamento local como um motor de desenvolvimento económico, valorização do património e fixação de população, reforçando que a qualidade, o profissionalismo e a sustentabilidade são hoje exigências fundamentais para o setor.

A Secretária Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas, Berta Cabral, numa mensagem dirigida aos participantes, destacou o papel absolutamente determinante do alojamento local no desenvolvimento do turismo dos Açores, lembrando que foi decisivo em fases críticas de crescimento do destino, permitindo responder à procura, elevar a qualidade da oferta, diversificar experiências e levar o turismo a todas as ilhas, ao longo de todo o ano.
Berta Cabral sublinhou ainda que o alojamento local é um verdadeiro instrumento de democratização do rendimento do turismo, de reabilitação do edificado, de criação de emprego e autoemprego e de dispersão equilibrada dos fluxos turísticos, incluindo zonas rurais e periféricas. Destacou o efeito multiplicador do setor na economia regional, impulsionando novos negócios e atividades complementares em todo o território.
A Secretária Regional alertou, no entanto, para a entrada numa nova fase do turismo regional, nacional e europeu, marcada por instabilidade geopolítica, alterações nos padrões de consumo e sinais de ajustamento da procura, defendendo uma aposta clara na qualidade, sustentabilidade e criação de valor. Sublinhou a importância de manter uma imagem positiva e credível do destino Açores, afastando narrativas simplistas de massificação ou crise, e reforçando o posicionamento do arquipélago como destino seguro, sustentável e diferenciado.
No encerramento da sua mensagem, Berta Cabral anunciou que o Governo dos Açores está a trabalhar na criação de um Conselho Regional de Turismo, enquanto espaço de reflexão, debate e construção de soluções estratégicas, com representação de todos os stakeholders do setor. Reafirmou que o futuro do turismo nos Açores se constrói em diálogo, responsabilidade e cooperação, destacando que o alojamento local continuará a ser uma parte essencial desse caminho.

Após o encerramento dos discursos de abertura, deu-se espaço para todos poderem desfrutar de um coffee break, com acesso a expositores informativos dos parceiros convidados a participar no 4.º Encontro do Alojamento Local Açores.

Na abertura do 1.º painel, Daniel Assunção convidou os oradores a mergulhar num momento de reflexão aprofundada sobre o papel estruturante deste setor no desenvolvimento económico, social e territorial da Região Autónoma dos Açores.
O painel contou com a participação do Dr. Fernando Guerra, da Direção Regional da Ordem dos Economistas, Catarina Manito, Presidente da Câmara Municipal da Madalena, Dr. Francisco Rosa, Vice-Presidente da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, e da Dra. Cláudia de Almeida, Diretora do Curso de Turismo da Universidade do Algarve, que participou à distância devido às condições meteorológicas adversas que afetaram as ligações aéreas com o Continente.
Na abertura da sessão, o moderador sublinhou que o objetivo do painel passava por promover um debate de ideias útil, crítico e orientado para a prática, capaz de gerar contributos relevantes para os agentes económicos, para os territórios e para o futuro do turismo na região. Foi reforçada a importância de olhar para o alojamento local não apenas como uma resposta à procura turística, mas como um fenómeno com impactos profundos na economia regional, na coesão territorial e na qualidade de vida das comunidades locais.
O contributo económico e social do alojamento local
Na sua intervenção, a Dra. Cláudia de Almeida começou por agradecer o convite dirigido à Associação do Alojamento Local, na pessoa do seu presidente, João Pinheiro, lamentando a impossibilidade de estar presente fisicamente devido à intempérie que se fazia sentir no continente. Enquadrando a sua análise com base em dados recentes, destacou que o alojamento local assume hoje um papel estrutural no desenvolvimento económico e social dos Açores.
Segundo dados do Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA), à data de 19 de janeiro, existiam 4.653 unidades de alojamento local registadas na Região Autónoma dos Açores, o que representa cerca de 3,4% do total nacional. Este crescimento foi particularmente acentuado na última década, coincidindo com a liberalização do espaço aéreo e com a entrada de companhias aéreas de baixo custo, como a Ryanair, que começaram a operar na região há cerca de dez anos, tornando o destino mais acessível e competitivo.
Cláudia sublinhou que o alojamento local não funciona de forma isolada, integrando uma cadeia de valor alargada, que envolve serviços de limpeza, lavandarias, manutenção, jardinagem, carpintaria, assistência técnica e muitos outros prestadores locais. Este ecossistema gera um efeito multiplicador diário na economia regional, particularmente relevante em territórios insulares, onde a proximidade e a escala local potenciam impactos diretos no rendimento das famílias.
No que diz respeito à dinâmica económica, destacou que o alojamento local tem apresentado um crescimento significativamente superior ao da hotelaria tradicional. Até novembro de 2025, o setor aproximava-se dos 2 milhões de dormidas, com um crescimento homólogo de cerca de 8%, enquanto a hotelaria registava um crescimento na ordem dos 1%. Estes números confirmam a relevância crescente do setor, apesar de se tratar de uma realidade relativamente recente do ponto de vista estrutural.
A nível territorial, salientou que o alojamento local tem sido fundamental para promover a mobilidade interilhas e a dispersão dos fluxos turísticos, um dos objetivos estratégicos do Plano de Marketing Turístico dos Açores. Em ilhas com menor oferta hoteleira, o alojamento local tem sido determinante para permitir a visitação a zonas rurais e periféricas, contribuindo para um desenvolvimento mais equilibrado do território.
Após terminar a sua perspetiva, seguiu-se Dr. Fernando Guerra, da Direção Regional da Ordem dos Economistas, reforçando a leitura económica do fenómeno, sublinhando que o alojamento local deixou de ser uma atividade marginal para se afirmar como um player económico estruturante, com impacto mensurável no Produto Interno Bruto regional.
Segundo os dados apresentados, o setor representa cerca de 7% do PIB dos Açores e envolve aproximadamente 4.000 trabalhadores, números que evidenciam a sua importância para a economia regional. O economista destacou ainda o conceito de “valor fora da cama”, explicando que cerca de 60% do impacto económico do alojamento local é induzido, ocorrendo fora da unidade de alojamento, através do consumo de bens e serviços locais, superando mesmo o valor gerado diretamente nas unidades.
Foi ainda salientado o papel do alojamento local na democratização e redistribuição do rendimento, uma vez que se trata de um setor composto maioritariamente por microempresas. Em contraste com grandes investimentos hoteleiros, frequentemente apoiados por elevados incentivos públicos, o alojamento local alcança impactos económicos semelhantes através de centenas de pequenos projetos, promovendo uma distribuição mais capilar da riqueza.
O Dr. Fernando Guerra destacou igualmente o contributo do setor para a reabilitação de património degradado, tanto em contexto urbano como rural, permitindo a recuperação de edifícios que, de outra forma, permaneceriam devolutos. Acrescentou ainda que 76% das dormidas em alojamento local correspondem a turistas estrangeiros, demonstrando a forte capacidade de atração internacional da oferta existente na região.
Seguindo-se Catarina Manito, Presidente da Câmara Municipal da Madalena que centrou a sua intervenção na realidade concreta do território, sublinhando o impacto profundo que o alojamento local teve na dinâmica económica e social do concelho e da Ilha do Pico.
Nos últimos anos, o crescimento do setor contribuiu significativamente para a reabilitação urbana, sobretudo em freguesias periféricas, gerando rendimento adicional para as famílias, muitas vezes num contexto de pluriatividade económica, característica comum nos territórios insulares. A autarca destacou ainda o aumento expressivo dos pedidos de licenciamento para alojamento local no concelho.
Enquadrando o fenómeno na identidade da ilha, recordou que o Pico se estrutura em torno de três marcas territoriais distintas: São Roque do Pico, como capital do turismo rural dos Açores, Madalena, como capital da vinha e do vinho, e Lajes do Pico, como capital da cultura baleeira. Este posicionamento reforça um modelo de turismo de proximidade, assente no contacto direto com a comunidade local.
A Presidente da Câmara recordou ainda que a Madalena foi distinguida, em 2023, com o galardão Best Tourism Village, atribuído pelas Nações Unidas, reconhecimento que valoriza a autenticidade, a cultura, o território e a comunidade — valores intrinsecamente ligados ao alojamento local.
O Dr. Francisco Rosa, Vice-Presidente da Câmara do Comércio e Indústria dos Açores, destacou o papel fundamental do associativismo, elogiando a atuação da Associação do Alojamento Local pela sua capacidade de organização, representação e intervenção pública. Apontou ainda a importância do alojamento local no período pós-liberalização do espaço aéreo, sublinhando que a adaptação e crescimento do setor foram decisivos para absorver a procura turística crescente. Referiu que o alojamento local evoluiu de um simples modelo de “bed and breakfast” para uma oferta centrada na experiência, assumindo-se como um dos principais veículos de promoção da identidade cultural açoriana.
O responsável alertou, no entanto, para os riscos associados à perda de identidade, nomeadamente com a entrada de grandes investidores com múltiplas unidades, defendendo que o verdadeiro valor do alojamento local reside na gestão de proximidade e na autenticidade da experiência oferecida.
A questão da conectividade aérea e das acessibilidades inter-ilhas foi amplamente debatida, assumindo-se como um dos temas centrais do painel. Na sua intervenção, Francisco sublinhou que, para uma região arquipelágica como os Açores, a conectividade não é apenas um fator de competitividade turística, mas sim um elemento essencial à sobrevivência económica e social do território.
Recorrendo a uma metáfora forte, afirmou que as acessibilidades funcionam como “oxigénio” para a região: sem elas, mesmo os melhores investimentos, certificações ou reconhecimentos perdem utilidade. Sublinhou ainda que a realidade das ilhas é desigual, existindo territórios que conseguem resistir temporariamente a falhas de conectividade, enquanto outros ficam imediatamente comprometidos. Esta desigualdade reforça a necessidade de uma abordagem diferenciada e justa no planeamento das políticas públicas.
Neste contexto, destacou a importância do conceito de equidade, distinguindo-o da simples igualdade. Referindo um exemplo concreto apresentado num Conselho Económico e Social, explicou que o custo de infraestruturas básicas, como um quilómetro de estrada no Corvo, não pode ser avaliado com os mesmos critérios que em ilhas maiores como São Miguel. Um investimento que pode parecer elevado à escala local representa, na realidade, um impacto reduzido no orçamento regional, mas pode ser determinante para garantir condições mínimas de desenvolvimento e coesão territorial.
Francisco alertou ainda para o atual fenómeno de concentração de fluxos turísticos, sobretudo em determinadas ilhas e pontos de interesse, defendendo que a falta de capacidade para dispersar visitantes cria riscos de massificação, já visíveis nos meses de julho e agosto. Embora reconheça que ainda existe margem de crescimento, sublinhou que esse crescimento tem de ser acompanhado por uma estratégia clara de redistribuição territorial, capaz de aliviar a pressão sobre os destinos mais procurados e valorizar outras ilhas e realidades.
Nesse sentido, reforçou que a dispersão de fluxos depende diretamente da capacidade de mobilidade interna, voltando a sublinhar o papel central das acessibilidades e da conectividade aérea e marítima. Recordou ainda que o Estatuto Político-Administrativo dos Açores consagra o princípio do desenvolvimento harmónico, defendendo que este deve ser periodicamente revisitado como orientação estratégica para o futuro da região.
Na sua intervenção, Catarina Manito, trouxe para o debate a perspetiva do poder local, enquadrando o tema das acessibilidades numa lógica de responsabilidade coletiva. Começou por recordar que os Açores são 9 ilhas e que a região dispõe de uma companhia aérea própria, a SATA, que deve ser forte e sustentável, mas não à custa de um esforço fiscal desproporcionado para os contribuintes.
A autarca defendeu a necessidade de encontrar um equilíbrio entre sustentabilidade financeira e desenvolvimento económico, sublinhando que ilhas como o Pico, Flores ou Corvo dependem fortemente de uma SATA Air Açores robusta, com ligações regulares, frequentes e ajustadas às necessidades reais das populações e dos agentes económicos.
Foi particularmente crítica em relação ao papel das companhias aéreas low cost, salientando que estas funcionam essencialmente como emissoras de turismo para São Miguel e Terceira, raramente contribuindo para a chegada direta de turistas a ilhas mais pequenas. Nesse sentido, defendeu que a estratégia regional não pode assentar exclusivamente neste modelo, sendo fundamental reforçar a capacidade operacional da SATA, com aeronaves posicionadas em vários pontos do arquipélago e horários que permitam uma mobilidade mais eficiente.
Abordou ainda os constrangimentos existentes no Triângulo (Pico, Faial e São Jorge), destacando a importância dos investimentos em infraestruturas aeroportuárias, nomeadamente o aumento da pista do Pico. Este investimento permitirá operar aeronaves como o A320 com menos limitações, trazendo maior previsibilidade e tranquilidade ao tecido económico e às decisões políticas locais, sobretudo num contexto de privatização da SATA Airlines.
A Presidente da Câmara da Madalena defendeu ainda que o desafio não passa apenas por fazer chegar turistas à região, mas por incentivar estadias mais longas, especialmente fora da época alta. Partilhou o exemplo da Associação de Municípios do Triângulo, que tem vindo a defender a criação de pacotes turísticos de 10 dias, capazes de promover as três ilhas como um destino integrado, com impacto direto na redução da sazonalidade e no aumento da permanência média dos visitantes.
Referiu ainda iniciativas já desenvolvidas, como a promoção do turismo religioso associado às festividades do Espírito Santo, apresentadas em feiras como a Bolsa de Turismo de Lisboa, demonstrando que é possível estruturar produtos diferenciadores que valorizem a identidade cultural e permitam atrair visitantes em épocas intermédias e baixas.
Num testemunho mais pessoal, Catarina Manito destacou que a perceção das acessibilidades varia consoante o perfil do viajante. Enquanto viagens com múltiplas escalas podem ser aceitáveis para quem viaja sozinho, tornam-se um fator de forte penalização quando envolvem famílias, idosos ou pessoas com mobilidade reduzida. Defendeu, por isso, que a qualidade da experiência começa no acesso ao destino, sendo essencial minimizar constrangimentos e tornar as viagens mais diretas e previsíveis.
No encerramento desta parte do debate, foi reforçada a ideia de que o Triângulo deve ser promovido como um produto turístico único, evitando lógicas de competição interna entre ilhas. Empresários e decisores políticos foram desafiados a trabalhar de forma integrada, aproveitando a facilidade de mobilidade marítima e aérea entre Pico, Faial e São Jorge para criar pacotes turísticos consistentes, tanto para épocas médias como baixas.
Foi sublinhado que esta abordagem integrada pode representar uma resposta estratégica à redução de voos low cost, mitigando impactos negativos na procura e fortalecendo a resiliência do setor. A promoção de experiências diversificadas, ajustadas a diferentes segmentos de mercado, surge assim como uma ferramenta essencial para garantir a sustentabilidade económica do turismo regional.
Terminando o 1.º painel, deu-se seguimento ao almoço entre convidados, parceiros, oradores, salientando a oportunidade de potenciar network entre todos os presentes.

A ALA deu abertura ao 2.º painel do encontro dedicado ao setor, relacionado com “A Realidade do Alojamento Local”, um momento de reflexão aprofundada sobre as diferentes dinâmicas, desafios e oportunidades que caracterizam o alojamento local nas várias ilhas do arquipélago.
O painel partiu da premissa de que os Açores são compostos por 9 ilhas e 9 realidades distintas, reforçando a necessidade de uma leitura integrada, mas sensível às especificidades de cada território. Foi sublinhado que, tal como numa floresta, cada árvore é essencial para a construção do todo, sendo fundamental compreender cada realidade individual para evitar generalizações simplistas.
Susana Cascalheira (Graciosa), Jacqueline Oliveira (São Miguel), Pedro Lima (Pico) e Sérgio Cota (Terceira) abriram o painel. A sessão centrou-se inicialmente na partilha das experiências pessoais e profissionais de cada interveniente, bem como na evolução sentida desde o início da atividade de alojamento local até à atualidade.
Jacqueline Oliveira partilhou a sua experiência em São Miguel, onde gere dois apartamentos no concelho da Ribeira Grande. Destacou a crescente exigência do perfil dos hóspedes ao longo dos últimos dez anos, bem como a diversidade de comportamentos e expectativas dos visitantes. Sublinhou ainda que a realidade do alojamento local varia significativamente dentro da própria ilha, consoante a localização, e alertou para o impacto crescente da concorrência e da sazonalidade, especialmente nos períodos de inverno, onde se tem verificado uma maior procura pela hotelaria tradicional.
Da Graciosa, Susana Cascalheira trouxe uma perspetiva marcada pela ligação emocional ao território. Com experiência prévia no continente, decidiu investir na reabilitação de uma casa rural na Graciosa, não apenas com objetivos de rentabilidade, mas sobretudo pela qualidade de vida e pela experiência diferenciadora que a ilha proporciona. Referiu a importância da tranquilidade, do silêncio e da ligação à natureza como fatores de atração para um determinado perfil de turista, sobretudo famílias e visitantes que procuram descanso e autenticidade.
Apesar da dimensão reduzida do mercado, salientou que a atividade tem permitido assegurar a manutenção do imóvel e que existe potencial de crescimento, desde que acompanhado por uma estratégia clara de combate à sazonalidade, nomeadamente através da valorização de experiências diferenciadoras, como o surf, particularmente relevante nos meses de inverno.
Pedro Lima apresentou uma perspetiva de investidor e gestor de património familiar, com experiência recente no alojamento local no Pico, São Miguel e Algarve. Destacou que, no Pico, cerca de 78% da capacidade de alojamento está concentrada no alojamento local, o que confere ao setor um papel determinante na experiência turística da ilha.
Alertou para o crescimento significativo da concorrência nos últimos anos e para o impacto direto nas taxas de ocupação, sublinhando que o aumento do número de voos não tem sido acompanhado, na mesma proporção, pelo crescimento da procura. Referiu ainda desafios operacionais, como a dependência das plataformas de reserva, os custos de gestão, a necessidade de diferenciação da oferta e a crescente complexidade na avaliação da rentabilidade do negócio face às alternativas de arrendamento de longa duração.
Sérgio Cota, fundador e CEO da Azores Touch, trouxe uma visão de longo prazo, com quase uma década de experiência no setor. Recordou que o AL, nos Açores, passou por profundas transformações desde 2016, com um período de crescimento até 2019, seguido pelo impacto severo da pandemia, cujas consequências financeiras ainda se fazem sentir em muitas empresas.
Destacou ainda mudanças estruturais nas acessibilidades, nomeadamente o fim dos reencaminhamentos interilhas, o aumento do centralismo turístico em São Miguel e a desigualdade na distribuição de voos entre ilhas. No caso específico da Terceira, alertou para um retrocesso recente na atividade turística, sublinhando a necessidade urgente de medidas corretivas e de uma estratégia clara para o futuro. Ao longo do debate, a sazonalidade surgiu como um dos principais desafios transversais a todas as ilhas, ainda que com impactos distintos. Foi defendida a necessidade de assumir claramente a sua existência e de definir estratégias concretas para a mitigar, seja através da criação de produtos turísticos específicos, da diversificação de mercados ou da implementação de mecanismos de apoio às empresas durante a época baixa.
A mobilidade interna foi outro tema amplamente debatido, com destaque para a falta de transportes públicos adequados às necessidades dos turistas e dos residentes, sobretudo fora dos principais centros urbanos. A ausência de soluções eficazes limita a experiência dos visitantes e condiciona a competitividade do alojamento local face à hotelaria. Os intervenientes reforçaram a necessidade de alterar a perceção pública do alojamento local, frequentemente associado de forma negativa à crise da habitação. Foi sublinhado que o setor é um importante motor da economia regional, gerador de emprego, dinamizador de serviços locais e promotor da identidade cultural, através de parcerias com artesãos, produtores e operadores turísticos.
O painel encerrou com um apelo claro à definição de uma estratégia integrada de promoção do destino Açores, que tenha em conta a diversidade das ilhas e valorize também os territórios de menor dimensão. Foi igualmente reforçada a importância do associativismo, da formação local e da cooperação entre agentes do setor como fatores-chave para um desenvolvimento sustentável e equilibrado do alojamento local no arquipélago.
Entre as propostas apresentadas, destacaram-se a necessidade de uma estratégia clara para a sazonalidade, — assumindo-a ou combatendo-a de forma estruturada — o reforço da promoção internacional diferenciada por ilha, o investimento em experiências fora da época alta e a criação de condições para a livre circulação de turistas no arquipélago.
Como medida concreta, Sérgio Cota sintetizou que garantir a livre circulação de turistas entre ilhas seria o passo mais decisivo para melhorar o alojamento local nos Açores nos próximos anos. Jacqueline Oliveira reforçou a necessidade de uma companhia aérea estável ao serviço de residentes e empresários, bem como de uma mobilidade marítima mais frequente, defendendo que o crescimento turístico deve ser sempre compatível com a qualidade de vida das populações locais.
Após este painel, surgiu o último coffee break do dia, prosseguindo com a realização de dois workshops temáticos, reforçando a vertente prática e formativa do evento. Estas sessões foram pensadas como um complemento ao debate da manhã, focando-se em ferramentas, estratégias e tendências que impactam diretamente o setor do alojamento local e do turismo nos Açores, com especial atenção à inovação, inteligência artificial, fundos comunitários e contabilidade.

Um dos workshops foi dedicado ao impacto da inteligência artificial no turismo e no alojamento local, conduzido por Roberto Lino, fundador da AzorX. A sessão abordou de forma acessível e aplicada como estas tecnologias já estão a transformar áreas como a comunicação, a criação de conteúdos, a análise de mercado, a automação de processos e a experiência do cliente. Foi ainda sublinhada a importância das empresas estruturarem e otimizarem previamente os seus processos internos, garantindo que a tecnologia surge como um fator de escala, eficiência e qualidade, e não como um amplificador de fragilidades operacionais. O segundo workshop, dado por Rui Maciel, foi uma verdadeira sessão detalhada sobre contabilidade e fundos comunitários aplicáveis ao alojamento local, abordando as principais CAEs, situações de IRS para proprietários, questões importantes acerca do IRS, IRC e IVA, os cálculos necessários para perceber que lucro obter. Na realidade, foi um workshop incisivo, mostrando a todos os envolvidos a importância que é ter uma contabilidade extremamente organizada, de modo a cumprir com todas as regras e obrigações fiscais.

No seu conjunto, os workshops reforçaram a ideia de que o futuro do turismo na Região passa por um posicionamento assente na qualidade, na diferenciação e na inovação, promovendo um equilíbrio sustentável entre crescimento económico, bem-estar das comunidades locais e preservação do território. Estas sessões deixaram também um apelo claro à preparação das empresas e dos profissionais para os desafios que se avizinham, num contexto de crescente concorrência entre destinos e de rápida transformação digital.

O dia encerrou-se com um agradável jantar de convívio para todos os participantes do evento, fomentando aquilo que de melhor a ALA impulsiona: a união pelo sucesso do AL, nas ilhas, nos Açores.

Para o último dia do evento, os trabalhos começaram com o 3.º Painel dedicado à Mobilidade no Triângulo, trazendo para cima da mesa os principais desafios e soluções entre as ligações das ilhas. O painel foi moderado por Luísa Couto (TVI), tendo como principais convidados Marla Pinheiro, da ATLÂNTICOLINE, Carlos Ferreira, da Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores (AMRAA), António Pedro, da Agência de Viagens Aquarius e, por último, estaria presente Bernardo Oliveira, da SATA, mas infelizmente, por condicionantes meteorológicas, só conseguiu estar presente no último painel da tarde.
Luísa Couto abriu o painel lembrando a ausência de um representante da SATA, salientando que isso não impediria a discussão sobre mobilidade aérea, e introduziu os convidados: Marla Pinheiro, da ATLÂNTICOLINE, responsável pelo transporte marítimo no Triângulo e Grupo Ocidental, António Pedroso, operador turístico especializado na promoção e organização de viagens nas ilhas, e Carlos Ferreira, presidente da Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores (AMRAA). Quando foi dada a palavra a António Pedroso, este começou por relatar casos concretos de turistas que enfrentaram dificuldades de acesso a São Jorge devido à programação tardia dos transportes, como uma família de Lisboa que, apesar de planear férias com antecedência, não conseguiu regressar à ilha. Criticou, também, o amadorismo histórico na gestão do turismo e do transporte, apontando que a publicação tardia de horários, tanto marítimos quanto aéreos, continua a ser um entrave sério para a promoção turística e a experiência do visitante. Destacou também a relevância de preços acessíveis, usando o exemplo das “escapadinhas de inverno” criadas após a crise sísmica de São Jorge, que atraíram mais de 600 turistas, gerando 2.000 dormidas que ajudaram a minimizar os custos da baixa temporada.
Para se justificar do atraso da publicações, Marla Pinheiro explicou que a ATLÂNTICOLINE enfrentou desafios técnicos e logísticos para a publicação antecipada dos horários, especialmente devido à transição para um novo sistema de vendas online, projetado para aumentar a autonomia do cliente e criar oportunidades de parceria com alojamentos locais através de programas de afiliados. Marla detalhou que, para equilibrar as necessidades do turismo, obrigações de serviço público e transporte pendular entre ilhas, a empresa trabalha em constante articulação com municípios e outras instituições, adaptando até os horários para festividades locais, como a Semana Cultural das Velas. “O contrato de serviço público não é só um contrato, é uma missão. Devemos garantir que as pessoas possam aceder a cuidados de saúde, educação, e que as empresas consigam operar entre ilhas de forma sustentável”, afirmou Marla Pinheiro.
Carlos Ferreira destacou a necessidade urgente da ampliação das pistas nos aeroportos do Pico e da Horta como fatores críticos para a expansão da mobilidade, turismo e economia local. Partilhou que ambos os projetos são processos complexos, envolvendo critérios técnicos de segurança e aprovação de entidades reguladoras nacionais. Sobre a pista do Aeroporto da Horta, esclareceu que a Câmara Municipal está a desenvolver um projeto de execução com um agrupamento de empresas contratado via concurso público internacional, desmentindo rumores de bloqueio administrativo.
“Estas duas pistas são absolutamente complementares e essenciais para a mobilidade no Triângulo, servindo também os grupos central e ocidental da região”, afirmou Carlos Ferreira, reforçando que a execução técnica não pode ser substituída por decisões políticas, embora estas possam pressionar para o cumprimento de calendários e aprovação de candidaturas a fundos comunitários como o PO 2030.
O debate destacou a importância do planeamento conjunto entre empresas, municípios e operadores turísticos, de modo a permitir uma melhor programação de atividades, evitar cancelamentos e aumentar a atratividade das ilhas para visitantes. Carlos Ferreira sublinhou ainda o papel social da ATLÂNTICOLINE, que não serve apenas os municípios ou executivos locais, mas as populações, garantindo deslocações para festividades culturais, educação, saúde e atividades económicas.
Luísa Couto reforçou o seu papel enquanto moderadora e alertou que o objetivo do debate é promover transparência e responsabilização dos decisores, permitindo que tanto o público quanto os profissionais do setor devem compreender as limitações, soluções e planos futuros.
O painel abordou os riscos e implicações de uma eventual separação entre companhias aéreas do grupo SATA, sublinhando que, caso sejam entidades distintas, os passageiros poderão ficar menos salvaguardados. Apesar das dúvidas quanto à melhor solução estrutural, foi reforçada a necessidade de proteger objetivamente a SATA Açores, reconhecendo-se à Azores Airlines um papel central, sobretudo na garantia da ligação entre os Açores e o continente português, assegurando o princípio da continuidade territorial.
Foi defendido que a missão prioritária da Azores Airlines deve ser, em primeiro lugar, servir as ilhas que dependem exclusivamente desta companhia (gateways), depois a diáspora açoriana e só posteriormente outras rotas que sejam sustentáveis, caso existam aeronaves suficientes. Houve consenso de que decisões estratégicas desta dimensão exigiriam a presença de representantes da SATA com poder efetivo de decisão, dada a complexidade técnica e política envolvida.
No debate com o público, discutiu-se a Tarifa Açores, reconhecida como uma medida muito positiva por aumentar significativamente a mobilidade inter-ilhas e reforçar o sentimento de pertença regional. Apesar de algumas preocupações quanto à escassez de lugares na época alta e ao impacto financeiro da tarifa, foi esclarecido que a companhia aérea recebe o valor total dos bilhetes, sendo o diferencial suportado pelo Governo Regional, o que significa que a SATA não é financeiramente prejudicada por esta política.
Por fim, abordaram-se temas complementares como a taxa turística municipal, a necessidade de melhor planeamento e comunicação da sua aplicação, e as limitações das ligações marítimas, em particular a eventual ligação Santa Maria–São Miguel. Ficou claro que qualquer reforço de rotas marítimas implica custos deficitários, limitações de frota e decisões políticas conscientes, devendo ser sempre enquadrado numa estratégia global que não prejudique as ligações essenciais, como as do Triângulo, nem comprometa a sustentabilidade do sistema de transportes nos Açores.
Após o painel terminar, deu-se início ao workshop sobre melhorias no AL, com a vogal da ALA de São Jorge, Rita Madruga, a partilhar o que se deve ter em conta enquanto se pensa, cria e abre-se as portas de um AL - a importância da identidade, dos gift bags, a decoração, a limpeza, tudo o que envolve uma experiência para o hóspede e que possa potenciar a mesma.

Terminando o workshop, deu-se início à hora de almoço, mais um momento que juntou agentes políticos, profissionais da área, bem como, convidados da ALA para o evento.

A última parte do evento foi dedicada à Qualificação do AL e os caminhos para a excelência, com moderação de Raquel Franco (Vice-presidente ALA), tendo também recebido Bernardo Oliveira, por parte da SATA, Teresa Tiago (Universidade dos Açores), Rosa Costa (Diretora Regional do Turismo), Francisco Câmara (Engenheiro Civil) e Elias Pereira (Advogado).
Na abertura da sessão, Raquel Franco, sublinhou que o Alojamento Local representa atualmente cerca de 62% da capacidade de alojamento da Região Autónoma dos Açores, com aproximadamente 4.650 unidades e 26 mil camas, tendo sido essencial para responder rapidamente ao aumento da procura turística, em particular nas ilhas com menor oferta hoteleira. Foi consensual que o setor tem funcionado como um verdadeiro instrumento de coesão territorial, fixação de população e dinamização económica local.
Ao longo do debate, foi reconhecido que, apesar do crescimento significativo, o AL é ainda um setor em fase de consolidação, exigindo investimento contínuo na qualificação da oferta, dos serviços e dos recursos humanos. Foi assumido que o lucro é um objetivo legítimo, não apenas como retorno do investimento, mas como condição necessária para o reinvestimento e melhoria contínua das unidades. A profissionalização do setor foi apontada como um passo essencial para responder a turistas cada vez mais exigentes e para garantir a sustentabilidade do destino a médio e longo prazo.
Na vertente jurídica, o advogado Elias Pereira alertou para a necessidade de olhar para o atual regime legal do AL, em vigor desde 2016, com sentido estratégico. Reconhecendo que o enquadramento atual tem permitido o desenvolvimento do setor, sublinhou que existem riscos legislativos e políticos futuros, sobretudo num contexto de crescente interesse de grandes investidores externos. Nesse sentido, defendeu que deve ser feita uma reflexão atempada sobre mecanismos que salvaguardem a identidade cultural açoriana, evitando fenómenos de descaracterização do território. Elias destacou que o AL não deve ser encarado apenas como um ativo económico, mas também como um ativo cultural e social, com impacto direto na forma como o destino se apresenta ao exterior.
Do lado do Governo Regional, Rosa Costa enquadrou os desafios atuais da mobilidade aérea, reconhecendo que a saída da Ryanair representa uma preocupação relevante, sobretudo para a época baixa. Ainda assim, explicou que esta situação está inserida num contexto global de escassez de aeronaves e de fortes limitações operacionais, como os constrangimentos de slots no aeroporto de Lisboa. Sublinhou que o Governo tem apostado no reforço da operação da SATA, no aumento das ligações ao Canadá e na diversificação de companhias e mercados, recordando que, nos últimos anos, o número de companhias aéreas a operar para os Açores passou de 3 para 16. Apesar disso, admitiu que não existem soluções imediatas para colmatar todas as necessidades do curto prazo, sendo a estratégia assente numa construção gradual e sustentada.
A perspetiva académica foi trazida pela Professora Teresa Tiago, que defendeu que o AL deve ser encarado como parte integrante da estratégia global do destino turístico. Para a investigadora, o futuro do setor passa claramente pela segmentação e diferenciação, reconhecendo que nem todas as unidades de Alojamento Local respondem ao mesmo tipo de procura. Sublinhou ainda que a experiência do hóspede, a autenticidade, o acolhimento e a ligação à comunidade local são fatores cada vez mais valorizados, defendendo modelos de turismo de base comunitária e maior colaboração entre os diferentes agentes do território.
Por sua vez, o engenheiro Francisco Câmara destacou o impacto positivo do AL na reabilitação urbana e na qualificação do edificado nos Açores. Referiu que muitos investimentos em AL permitiram melhorar condições de segurança, conforto e eficiência dos edifícios, contribuindo para a valorização do património construído. No entanto, alertou para os elevados custos associados à reabilitação e para a importância de garantir estabilidade normativa e fiscal, sob pena de desincentivar o investimento e comprometer a sustentabilidade do setor.
Na fase final do debate, ficou claro que a análise do desempenho turístico dos Açores não pode ser feita apenas à luz da promoção, devendo considerar também fatores externos que condicionam a procura. Foi sublinhado que o mercado norte-americano, que vinha a registar um crescimento consistente, entrou recentemente numa fase de retração marcada por um clima de instabilidade interna e por um receio generalizado de viajar, mesmo entre cidadãos com situação legal regularizada. Esta quebra levanta preocupações adicionais, sobretudo tendo em conta o investimento significativo realizado por companhias como a SATA e a United Airlines, sem que exista ainda previsibilidade clara sobre a evolução deste mercado no próximo ano.
Relativamente ao mercado nacional, foi apontado que o crescimento registado concentra-se, sobretudo, nos meses de época baixa, o que indica uma maior sensibilidade ao preço por parte do turista português. Os dados globais do ano revelam cerca de 3,6 milhões de dormidas e 9,4 milhões de euros em receitas, mantendo-se uma tendência clara: as receitas têm crescido de forma muito mais acentuada do que o número de dormidas. Esta realidade foi interpretada como um sinal positivo, uma vez que permite maior capacidade de investimento e melhor remuneração dos trabalhadores, ainda que traga consigo o desafio de gerir o aumento progressivo dos preços no destino. Foi reconhecido que, em período de verão, os Açores se tornam menos competitivos face a outros destinos concorrentes para o mercado português, o que reforça a necessidade de estratégias específicas para o inverno, aproveitando a apetência do público fora da época alta.
Nesse contexto, foi destacada a importância de desenvolver campanhas de inverno direcionadas para o mercado nacional, bem como de reforçar a integração do Alojamento Local nos canais tradicionais de venda. Foi reconhecido que o AL enfrenta dificuldades históricas em estar presente nos sistemas das agências de viagens, nomeadamente nos GDS, mas também foi referido que alguns operadores, como a Abreu, já manifestaram interesse em criar bancos de camas exclusivamente de alojamento local, em resposta à mudança do perfil da procura. Defendeu-se, por isso, uma maior concentração de esforços entre empresários, operadores turísticos, companhias aéreas e entidades de promoção, sublinhando que a promoção é uma responsabilidade partilhada entre o setor público e privado.
Na sua intervenção, o representante da SATA enquadrou de forma clara as limitações atuais da companhia aérea. Foi explicado que o plano de exploração para o verão contempla cerca de 570 voos semanais em 16 rotas, sendo que a principal pressão sentida pela companhia resulta da escassez de aeronaves e das obrigações impostas pelo contrato de serviço público. Foi recordado que a chamada Tarifa Açores, apesar do seu sucesso em termos de mobilidade regional, trouxe também uma “dor de crescimento”, obrigando ao aumento automático de frequências em rotas com taxas de ocupação superiores a 90%, como Ponta Delgada–Horta, Flores, Terceira e Pico. Reconhecendo que poderia existir margem para uma resposta mais robusta no verão, foi assumido que essa discussão se torna estéril perante as limitações estruturais atuais.
Mais do que insistir no reforço da época alta, foi defendido que o verdadeiro desafio estratégico reside na redução da sazonalidade, um objetivo em que a SATA se mostrou totalmente disponível para colaborar, seja através de preços, campanhas ou desenvolvimento de pacotes em parceria com alojamento local, operadores turísticos e agências de viagens. Foi sublinhado que o verão, do ponto de vista da companhia aérea, está praticamente esgotado em termos de capacidade, ao passo que o inverno representa uma oportunidade clara para gerar mais receita, mais passageiros e maior equilíbrio económico para a Região.
Nesse enquadramento, foi lançada uma reflexão mais ampla sobre a capacidade do território para responder a um eventual aumento de fluxos turísticos no verão, questionando se a Região consegue garantir, em todos os níveis — alojamento, restauração, experiências, serviços municipais e infraestruturas — uma experiência de excelência compatível com os preços praticados. Foram referidas as pressões já sentidas pelos municípios, nomeadamente ao nível da recolha de resíduos e do consumo de água, defendendo-se que a discussão deve deslocar-se do simples pedido de mais voos para uma avaliação mais profunda da qualidade do produto entregue.
A Professora Teresa Tiago retomou a questão da qualificação, defendendo que o AL não deve ser encarado apenas como uma tipologia homogénea, mas sim como um elemento estratégico do destino, com diferentes papéis consoante o contexto urbano, rural ou patrimonial. Sublinhou que a diferenciação passa essencialmente pelo serviço e pela experiência, lembrando que o turista atual é mais informado, mais exigente e procura cada vez mais o chamado feel like home. Pequenos detalhes podem ter um impacto decisivo na perceção de valor. Alertou ainda que não faz sentido investir apenas em promoção se a experiência final não corresponder às expectativas criadas, uma vez que o destino é avaliado como um todo, envolvendo transportes, mobilidade, serviços públicos e privados.
Na vertente estratégica do destino, a Diretora Regional do Turismo confirmou a existência de um novo Plano Estratégico de Turismo dos Açores (PENT) 2030, lançado em 2023, alinhado com as tendências atuais do setor. O plano aposta em experiências imersivas, contacto com a comunidade local, sustentabilidade, gastronomia identitária e, de forma muito clara, no desenvolvimento do wellbeing como produto turístico, especialmente relevante para a época baixa. Foi defendido que o inverno açoriano, com clima ameno, paisagens verdes, silêncio e tranquilidade, representa uma oportunidade concreta para atrair mercados como o nórdico e o norte-americano, nomeadamente através de retiros de yoga, meditação e redução de stress, um segmento em crescimento na Região.
Foi também apresentado o projeto Monitur, um sistema de monitorização dos fluxos turísticos que permitirá recolher dados em tempo real sobre os locais mais visitados, ajudando a gerir melhor os fluxos, melhorar a experiência do visitante e apoiar a promoção do destino com base em dados concretos.
Na dimensão jurídica, o advogado Elias reforçou a distinção entre problemas conjunturais e estruturais, alertando para riscos de médio e longo prazo associados à identidade do ÁL, à entrada desregulada de grandes investidores e à pressão sobre o mercado da habitação. Defendeu a necessidade de criar critérios mais exigentes para o crescimento do setor, reforçar a fiscalização contra práticas ilegais e antecipar politicamente o discurso que associa o AL à crise habitacional. Sublinhou que a estabilidade e a fidelização do investimento são fundamentais para proteger o interesse público e preservar o equilíbrio do mercado.
Por sua vez, o engenheiro civil, Francisco Câmara, focou-se em medidas práticas para a qualificação de edifícios, destacando a importância do controlo da humidade, do isolamento térmico e acústico, da ventilação adequada e da modernização dos sistemas de aquecimento. Defendeu ainda que o associativismo pode desempenhar um papel relevante na criação de padrões mínimos de qualidade, facilitando a fiscalização e elevando o patamar global do setor.
O painel encerrou com a convicção partilhada de que o alojamento local é um pilar essencial do turismo açoriano, mas que o seu futuro dependerá de uma estratégia integrada, assente na qualificação da oferta, na redução da sazonalidade, na cooperação entre entidades públicas e privadas e numa visão clara sobre o tipo de turismo que a Região pretende atrair. O inverno foi consensualmente identificado como o grande desafio e, simultaneamente, a maior oportunidade para garantir um crescimento mais equilibrado, sustentável e alinhado com a identidade dos Açores.

Terminando o painel, deu-se início aos discursos de encerramento com Anabela Castro, Vogal da ALA, da ilha do Pico, e com Duarte Freitas, Secretário Regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública.
Anabela Castro destacou o forte significado do encontro para a comunidade do Alojamento Local, sublinhando a importância de, ao longo de dois dias, reunir colegas, empresários e diversos stakeholders num espaço de partilha, reflexão e construção conjunta. Para a vogal "o Alojamento Local tem atravessado profundas transformações na última década, que alteraram de forma significativa a maneira como os negócios são geridos, comunicados e promovidos, tornando temas como marketing, comunicação e inteligência artificial cada vez mais centrais." Anabela também salientou que o setor enfrenta um presente exigente, que reclama respostas concretas por parte das entidades tutelares, nomeadamente ao nível da mobilidade aérea e terrestre, das práticas ambientais e da gestão turística em cada ilha, defendendo que o crescimento do turismo deve devolver às comunidades locais ilhas vividas com respeito, equilíbrio e autenticidade.
No seu discurso de encerramento, Anabela Castro reforçou que uma das principais conclusões do encontro foi a clara vontade coletiva de fazer melhor, fortalecendo sinergias já existentes e projetando os Açores como um destino simples de conhecer, mas estrategicamente bem estruturado. Sublinhou que esse objetivo implica cumprir um conjunto de responsabilidades, como o reforço da resposta aérea, a criação de ligações marítimas que facilitem a visita a mais do que uma ilha, o estabelecimento de parcerias de valor, a valorização da cultura e tradição locais, a agilização dos processos de acesso a fundos comunitários e a utilização eficaz das ferramentas digitais. Destacou ainda o foco dado, no último dia, à mobilidade do Triângulo, considerando essencial eliminar constrangimentos à mobilidade regional, tanto para residentes como para turistas. Por fim, deixou um agradecimento especial aos moderadores, oradores e formadores envolvidos, bem como à Câmara Municipal da Madalena, reafirmando o compromisso da ALA em continuar a descentralizar os seus encontros e a promover um crescimento sustentável, equilibrado e menos sazonal do turismo nos Açores.

Duarte Freitas, Secretário Regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública dos Açores, encerrou o encontro sublinhando a importância estrutural do Alojamento Local para o desenvolvimento económico, social e turístico da Região Autónoma dos Açores, destacando a Ilha do Pico como um exemplo particularmente feliz da integração entre turismo, cultura e comunidade. Na sua intervenção, evocou a tradição histórica de acolhimento nas adegas, espaços que, para além da produção vinícola, sempre funcionaram como locais de receção de familiares, amigos e visitantes, reforçando a ideia de que o Alojamento Local nos Açores assenta numa matriz cultural profundamente enraizada. Segundo o governante, é esta a proximidade, autenticidade e forma de receber que faz com que os turistas se sintam parte da comunidade, mais como família ou amigos do que como meros clientes, constituindo um dos maiores ativos diferenciadores do destino Açores.
Duarte Freitas salientou ainda o papel do AL enquanto fator de democratização do investimento turístico, assente maioritariamente em projetos familiares e de pequena escala, que contribuem para o equilíbrio social e económico das ilhas. Recordou que o setor representa atualmente cerca de 64% da capacidade de alojamento turístico da Região, com mais de 26 mil camas num universo aproximado de 41 mil, assumindo uma expressão sem paralelo, noutros destinos. Destacou igualmente que, de acordo com os dados mais recentes, o AL continua a crescer a um ritmo superior ao da hotelaria tradicional, refletindo a sua vitalidade e capacidade de adaptação, num contexto em que a economia açoriana apresenta indicadores particularmente positivos.
No enquadramento macroeconómico, o Secretário Regional destacou o crescimento recorde da receita de IRC, que praticamente duplicou face a 2019, a redução da taxa de desemprego para valores abaixo da média nacional e o aumento histórico da população ativa e empregada. Estes resultados foram associados a uma estratégia de devolução de rendimento às empresas e às famílias, através da redução do IRC, IVA e IRS, promovendo maior dinamismo económico e incentivando o investimento privado. Duarte Freitas sublinhou que este crescimento tem sido alcançado sem recorrer a mecanismos artificiais, mas sim através de uma economia real, mais pujante e resiliente, ainda que exigente na gestão das finanças públicas, reforçando a necessidade de revisão da Lei de Finanças das Regiões Autónomas, já reconhecida pelo próprio Orçamento do Estado.
No plano do investimento e da qualificação da oferta, Duarte Freitas destacou ainda o Construir 2030, em particular a Linha dos Pequenos Negócios, amplamente elogiada pela Comissão Europeia, por apoiar projetos de proximidade e reforçar a coesão territorial. Referiu que esta linha já conta com 445 candidaturas de Alojamento Local, representando cerca de 46 milhões de euros de investimento, orientados para a qualificação de mais de quatro centenas de unidades em todo o arquipélago. Explicou que esta opção estratégica teve como objetivo apoiar pequenos projetos e comunidades locais, evitando a sobre incentivação de um setor que já demonstrava capacidade natural de crescimento, mas assegurando, ainda assim, a melhoria contínua da qualidade da oferta.
Por fim, o mesmo abordou os desafios futuros do turismo açoriano, nomeadamente o impacto da saída da Ryanair, reiterando a posição crítica do Governo Regional face à aplicação de taxas ambientais à aviação nas regiões ultraperiféricas. Duarte Freitas defendeu que estas medidas representam uma injustiça estrutural, uma vez que os Açores dependem exclusivamente do transporte aéreo, apelando a uma revisão por parte da União Europeia. Enquanto essa correção não acontece, reafirmou o compromisso de trabalhar, em articulação com a SATA, com a promoção turística e com os agentes do setor, para mitigar os impactos imediatos e garantir um turismo cada vez mais sustentável, qualificado e gerador de valor. A intervenção terminou com uma valorização clara do AL enquanto uma das expressões mais autênticas e distintivas do turismo nos Açores, incentivando os profissionais do setor a continuarem a trilhar um caminho de crescimento equilibrado e sucesso partilhado.

O fim do evento foi dedicado ao networking e à partilha de informações por parte dos traders e dos parceiros que estavam no Auditório da Madalena. Seguiu-se um momento único de convívio, proporcionado pela Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, com uma prova de vinhos vasta e de produtos regionais que são tão característicos da região Autónoma dos Açores.
